Ao negar atos suprapartidários, Lula coloca divergências acima do compromisso histórico

Filomena 28/06/2020 Relatar 我要评论

Na última vez que viu Nelson Mandela, em dezembro de 2009, em sua residência em Joanesburgo, o repórter John Carlin, autor dos livros “Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul” e “Knowing Mandela: a Personal Portrait”, ouviu o líder sul-africano relembrar o dia em que estendeu a mão aos africâneres, descendentes de europeus que representavam a força política hegemônica durante o apartheid, a vergonhosa experiência de segregação racial que vigorou no país de 1948 a 1994.

“Minha gente dizia que eu tinha medo”, recordou “Madiba” no encontro. “Mas eu não entrei naquela discussão com eles. Não lhes disse nada. Eu sabia que tinha razão. Sabia que esse era o caminho para a paz. E, ao cabo de algum tempo, compreenderam que eu tinha razão. Viram os resultados. Vivemos em paz.”

A estratégia de Mandela, escreveu Carlin, em um artigo para o El País, era construir uma democracia estável na África o Sul e evitar um banho de sangue do qual ninguém sairia vencedor. Para isso era preciso “apelar às mentes e aos corações dos inimigos ancestrais de seu povo, e ao melhor de si mesmos”.

Mandela viu na paixão esportiva um elemento central, e agregador, da unificação. Abraçou a equipe sul-africana de Rugby, que tinha apenas um jogador negro, no Mundial de 1995. O país se uniu ao longo da campanha. A equipe se sagrou campeã -- a história está contada no filme “Invictus”, de Clint Eastwood.

Preso durante 28 anos, Mandela foi eleito presidente cinco anos depois de sua libertação, ocorrida em 1989, e conseguiu, de um lado, convencer a maioria negra a reprimir seu ódio e um possível impulso de vingança e, de outro, os opressores brancos a abandonarem velhos temores e suas armas, como resume seu biógrafo. “A prova eu tive quando entrevistei aqueles três velhos inimigos seus, o general Viljoen, Niel Barnard e Kobie Coetsee, depois que Mandela deixou a presidência. Os três falaram dele com veneração, admiração e – sem exagero – amor”.

Trago aqui o exemplo de Mandela não para fazer paralelos com o Brasil atual, mas para lembrar que o líder sul-africano sempre foi citado como referência pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Parece não ser mais.

Na sexta-feira (26), lideranças que caminharam em lados opostos até outro dia juntaram as vozes numa espécie de comício virtual em defesa da democracia -- e em oposição ao governo Jair Bolsonaro, um foco permanente de tensão com governadores e outros Poderes desde que foi eleito.

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